Leia os principais trechos da entrevista que Catherine concedeu à revista Marie Claire em Paris, sobre sua vida sexual.

Por que escrever sobre sua vida sexual?

CM Há oito anos, fiz um balanço da vida. Ao refletir sobre sexualidade senti uma defasagem entre a minha experiência e a ideologia da minha geração, que defendia a liberdade sexual como garantia de equilíbrio. Aproveitei bastante dessa liberdade, mas acabei sendo obrigada a reconhecer que ela também não era garantia de felicidade total.


Como você chegou a tal conclusão?

CM Se eu tivesse dado essa entrevista há 30 anos, teria colocado a sexualidade em um lugar central na minha vida. Hoje, ela é apenas um motor: é a nossa libido que nos faz agir. Mas outras coisas podem ser tão ou mais importantes que o sexo.


O que, por exemplo?

CM Se você perguntar às pessoas a minha volta, elas dirão que sou alguém que mergulha no trabalho. Além disso, tenho uma vida sentimental e conjugal muito satisfatória.


Você está com seu marido há 20 anos. Como esse relacionamento evoluiu?

CM
Durante os primeiros anos não mudei minhas práticas sexuais. Eu falava sobre as minhas experiências fora do casamento e ele, sobre as dele. Não escondíamos o que fazíamos, só não contávamos detalhes. Sempre existiu uma certa distância em relação ao que cada um fazia em seu canto, que, aliás, não era o mesmo tipo de experiência. Eu gostava de sexo em grupo e Jacques não, embora ele tivesse suas aventuras, suas amigas. Mas é um erro pensar que um casal pode dizer tudo, como aquela ideologia a que me referi deixava a entender. Não é verdade.


No livro você menciona vários episódios em que sentiu ciúme. Não é paradoxal?

CM
Liberdade sexual não elimina o ciúme. É uma contradição que a natureza humana não conseguirá jamais resolver. Nunca cheguei ao ponto de proibir meu marido de coisas que eu me autorizava a fazer. Mas isso não me impedia de sentir ciúme. Sempre fomos discretos em relação à vida sexual que tínhamos fora de nosso casamento e que durou anos. Pouco a pouco, fui me desligando dessa sexualidade dispersa. Percebi, então, que era ótimo estar com meu marido e que isso era suficiente. Mas acredito que nossa relação resistiu ao tempo também porque tínhamos essa liberdade sexual.


Você diz ser cega às tentativas de sedução. Isso não é importante?

CM
Sinto uma grande timidez na vida social. Não ousava fazer o tipo de preliminar que te obriga a olhar o outro nos olhos. Para mim era mais fácil estabelecer uma relação começando pela sexualidade. Era a minha maneira de entrar em contato com os outros. Uma das críticas que recebi foi a de ser indiferente, tinha vários parceiros e não prestava atenção neles. Para mim, o fato de fazer sexo com um homem me permitia entrar imediatamente na sua intimidade e, se eu o encontrasse uma segunda vez, já seria mais fácil de entender quem ele é, como vive, do que gosta.


Você expõe uma forma de sexualidade bem fora do comum, não revelada...

CM
Um grande número de pessoas da minha geração fez sexo grupal ou experimentou casamento aberto. Muitas dessas experiências dos anos 60, 70 e mesmo dos 80 foram um pouco esquecidas. Não se falava mais disso por razões sociais e por causa da aids. Meu livro fez com que as pessoas reencontrassem o clima daquela época e se lembrassem de suas experiências. Esse é o lado simpático do livro, as pessoas se sentem autorizadas a falar sobre isso.


Você esperava que o livro obtivesse tanto sucesso? (O livro já foi lançado na Europa e EUA).

CM
Não. Havia um clima puritano dominando a mentalidade das pessoas. A boa surpresa é a satisfação de constatar que na sociedade francesa atual há um número importante de pessoas que pode ir a uma livraria comprar o livro e falar do assunto sem se sentir envergonhada. É possível falar sobre a sexualidade de forma aberta e tranqüila.


Qual foi a crítica mais dura que recebeu?

CM
A mais dura, curiosamente, se apoiava em argumentos políticos. Era o discurso segundo o qual quem pode viver esse tipo de liberdade sexual são aqueles que vivem em um meio social burguês, em que é possível viajar e multiplicar os parceiros. Quem me conhece sabe que não tenho origem nesse meio e que não vivo conforme valores burgueses.


Publicações e filmes lançados recentemente na França por mulheres foram taxados como pornográficos. Há um novo discurso sexual?

CM
Trata-se de uma maneira de abordar a sexualidade que não é impregnada de ideologias, e sim de realismo. Estamos em plena maturidade, vivemos a liberação sexual, a digerimos e hoje fazemos algo novo e desinibido com isso.


Quando o livro fala sobre noitadas com 30 homens, a sensação é que você gosta de ser usada. É assim?

CM
Vivi situações em que meu corpo havia sido bastante solicitado, mas mesmo cansada eu tive prazer. Nunca pratiquei sadomasoquismo, mas podemos encontrar prazer na sensação de um corpo esgotado. Não acho que uma mulher de joelhos fazendo felação em um homem em pé seja algo humilhante. Não vejo a coisa pelo lado simbólico. É o meu corpo, não a minha mente que está de joelhos diante de um homem.


É possível ter prazer sem ver rostos e corpos?

CM
Isso faz parte da minha sexualidade singular. Sentia prazer em mergulhar numa massa de corpos onde não conseguia distinguir os traços. É uma espécie de abandono, de cegueira.


Você relata fantasias sexuais com parceiros que transam com uma certa negligência. Não é essencial se sentir importante para um homem?

CM
Pode parecer, nessas situações, que sou desprezada. Mas, nas noitadas com muitos homens, eu me imaginava o centro das atenções. Isso foi uma das coisas que me levaram a esse tipo de prática sexual.


Qual foi a reação de seu marido e de ex-amantes com o lançamento do livro?

CM
Com exceção de Jacques, meu marido, os nomes de meus amantes foram trocados. Eu preveni aqueles com quem mantenho contato até hoje que iria escrever o livro. As reações foram positivas. Jacques sempre me encorajou porque acreditava que era importante colocar no papel tudo o que vivi. E eu o agradeço porque não era uma coisa simples para ele, poderia colocá-lo numa situação ambígua.


Você já visitou o Brasil e teve um amante brasileiro. Como foi a experiência?

CM
O que me chamou a atenção no Brasil é como as mulheres mostram o bumbum na praia. Na França, não usamos a parte de cima do biquíni, mas não se mostra o bumbum. Para mim, a bunda é uma zona erógena extremamente importante. Gostaria de poder mostrar meu corpo da mesma forma que as brasileiras.


Qual foi a sua última aventura sexual?

CM
Progressivamente, Jacques e eu adquirimos alguns hábitos sexuais. Estamos juntos há vários anos e essa vida em comum e muito estável também fez a minha sexualidade evoluir. É o que chamo no livro de "cultura do casal". Gostamos de transar em lugares abandonados, como ruínas e pedreiras, ou então ao ar livre. Fotografamos ou filmamos muitas das nossas relações. Uma sessão de fotos vira um tipo de preliminar ao nosso ato sexual, como pode ser visto no livro de Jacques. Não vivi algo novo após o lançamento do livro, se é essa a sua questão. O livro me toma tanto tempo atualmente....

Fonte: Revista Marie Claire


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